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POPOTA & Co

Depois de colocar o post "movimento anti-Popota" verifiquei um aumento de visitas no blog e um número invulgar de comentários interessantes e até insultuosos.

Quer isto dizer várias coisas:

- O acto de dar ultrapassa a lógica da razão e move-se mais no registo das emoções. Damos por impulso, porque nos emocionamos, porque algo nos toca e mexe connosco, porque sentimos que podemos mudar a realidade e porque aspiramos por um mundo melhor, mais humano, mais solidário...

- Tudo aquilo que está a ser feito com a ajuda de figuras como a Popota e a Leopoldina tem, aparentemente, um fundo bom, solidário e altruísta. A ideia é mobilizar a sociedade para que ajude a melhorar algumas situações concretas de carência da nossa sociedade, como os serviços de geriatria e pediatria dos hospitais públicos portugueses.

- No entanto, as mensagens subliminares que passam são bem claras: "venham ao Continente/Modelo", "ao comprar está a ajudar", "ao arredondar está a ajudar", venha ao mundo encantado dos brinquedos", etc. A solidariedade do grupo Sonae não é inocente.

- Naturalmente que a estratégia do departamento de marketing que desenvolveu estas acções é puramente comercial: aumentar o volume de vendas através de uma associação com algumas causas sociais para criar empatia e uma imagem mais positiva na cabeça dos consumidores.

- Apesar de tudo, estas acções têm o mérito de conseguirem mobilizar um volume impressionante de meios que mais nenhuma outra organizações é capaz de fazer. Criar parcerias, ganhar massa crítica, conseguir alinhar a estratégia com a programação da RTP e TVI, inclusive garantir duas galas em horário nobre, com toda a logística que tudo isto pressupõe, fez com que as acções tivessem um relativo sucesso. Tanto a RTP como a TVI angariaram mais de 200 mil euros cada, para as respectivas causas. Curiosamente a RTP demorou um dia a angariar aquilo que a TVI fez em duas horas de emissão.

Por fim, resta-me acrescentar mais algumas notas:

- Estas acções estão a apoiar serviços que supostamente deveriam ser garantidos pelo Estado, pois estamos a pagar impostos para termos um serviço de saúde decente.

- Parte do valor das chamadas de valor acrescentado reverte a favor da causa e uma parte substancial são custos de operação, o que representa um bom negócio também para as operadoras (entre as quais Optimus - da Sonae).

- Todas as acções de merchandising assim como a publicidade, a organização do espectáculo, a produção do material de comunicação... tudo isto deve ter custado tanto ou mais do que os 400 mil euros angariados nas duas galas.

- Os donativos angariados beneficiam ainda de um desconto em sede de IRC.

- As acções de responsabilidade social do grupo Sonae devem ser mais autênticas e precisam de ultrapassar a simples lógica comercial, precisamente porque o grupo tem a responsabilidade de devolver à comunidade parte daquilo que recebeu. Portanto os lucros não devem ser apenas para remunerar os accionistas ou para oferecer um bonnus aos directores que desenharam estas "estratégias vencedoras", mas devem reverter em acções concretas para o bem da comunidade.

- E no fim disto tudo, quem se chega à frente para oferecer o cheque é precisamente um representante do grupo Sonae beneficiando gratuitamente, uma vez mais, de boa publicidade e de uma associação positiva com todas estas causas.

Não sou pessimista, muito pelo contrário. O ser humano é muito melhor do que aquilo que imaginamos. Se não acreditasse nisto não estaria aqui a perder tempo e a alimentar um blog com temas sobre a filantropia (philos + antrhopos = amor ao ser humano).

Gosto de ver a sociedade civil a mobilizar-se e a organizar-se para tentar resolver os seus problemas sem necessidade de ficar a espera que um dia o Estado intervenha. Mas também gosto de pensar as coisas, avaliar e decidir para onde é que vai o meu dinheiro.

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